Luiz Eduardo Soares é antropólogo, cientista político e escritor. Um dos maiores especialistas em segurança pública do país, Luiz é coautor dos livros que deram origem aos dois filmes Tropa de Elite. É mestre em Antropologia, doutor em ciência política com pós-doutorado em filosofia política. Foi professor da UNICAMP e do IUPERJ, além de visiting scholar em Harvard, University of Virginia, University of Pittsburgh e Columbia University. É professor da UERJ e coordena o curso à distância de gestão e políticas em segurança pública, na Universidade Estácio de Sá.

VIOLÊNCIA E INVISIBILIDADE

Há muitas formas de descrever e interpretar as violências, que são variadas. Vou focalizar um tipo, porque é frequente e próximo de nossa realidade. Um jovem pobre e negro caminhando pelas ruas de uma cidade brasileira é um ser socialmente invisível. No caso de nosso personagem, a invisibilidade decorre principalmente do preconceito ou da indiferença. Uma das formas mais eficientes de tornar alguém invisível é projetar sobre ele ou ela um estigma, um preconceito. Quando o fazemos, anulamos a pessoa e só vemos o reflexo de nossa própria intolerância.

Um dia, alguém dá a um desses meninos uma arma. Ela será o passaporte para a visibilidade. Quando nos ameaça na esquina, pela primeira vez, o menino não aponta para nós sua arma do alto de sua arrogância onipotente e cruel, mas do fundo de sua impotência mais desesperada. Na esquina, apontando-nos a arma, o menino, paradoxalmente, nos estende a mão e lança a nós um grito de socorro, um pedido de reconhecimento e valorização.

Pois é aí que as instituições da Justiça criminal e as entidades sócio-educativas erram. Quando seria necessário reforçar o valor dos jovens transgressores –sem deixar de afirmar limites--, as instituições jurídicas, ou da segurança pública, ou sócio-educativas os encaminham na direção oposta.